
Torcidas uniformizadas são grupos sem organização explícita, onde a participação é determinada pela sua vulnerabilidade social, procurando compensar a sua baixa perspectiva social por meio de excitação e identificação: com o clube ganhador, com um grupo que mobiliza o aparelho policial, e ainda o prestígio individual, pelas façanhas especiais e de desafio a toda estrutura de suporte ao espetáculo esportivo.
Conclusão:
A violência entre "torcidas organizadas" (acrescenta-se aqui o comportamento de inúmeros grupos de jovens) passou a ser uma preocupação social, uma vez que assumiu característica de acontecimento banal, débil e vazio. Na mesma proporção, passou a ser, também, um incômodo aos interesses em torno do evento esportivo. As explicações que sucederam, restritas à observação dos discursos das"autoridades esportivas" e dos "torcedores", têm ressonância nas seguintes justificativas: - má distribuição de renda; - exploração dos dirigentes esportivos e dos líderes das "torcidas"; - efeitos da criminalidade; - ausência de expectativa de futuro aos jovens; - ausência do Estado, enquanto mentor de políticas públicas de formação social; - efeitos da pobreza; - afrouxamento da ordem legal e das posturas repressivas das instituições de segurança e justiça; - falta de emprego; - miséria generalizada; - familiarização com a violência; - falta de infra-estrutura nos estádios de futebol; - má arbitragem;- gozações de adversários;- derrota de uma partida de futebol. Enfim, há um universo de argumentos e todos não são desprezáveis do ponto de vista da análise empírica. No entanto, os argumentos utilizados pelos "torcedores"e "autoridades esportivas" são insuficientes para aflorar aprofundamentos ao entendimento dessa modalidade de violência. As atitudes e as estratégias explicativas da violência (seja qual for sua natureza) com ênfase apenas no fortalecimento dos mecanismos de "segurança", no direcionamento das ações do poder público ao "disciplinamento" e à "manutençãoda ordem social vigente" devem ser, veementemente, refutadas para evitar injustiças e erros, historicamente repetidos. Primeiro, porque quem produz a violência, no visor imaginário do senso comum, é só a pessoa de baixo poder aquisitivo, pobre, negro ou mestiço. Segundo, porque a ordem dominante não reconhece que a violência pode constituir outras formas de relações sociais, reproduzindo representações, códigos e estilos de vida próprios. Por fim, porque o discurso dominante não reconhece que o indivíduo faz parte de um sistema social de padronização subjetiva e que recebe informações de diversas ordens, reagindo aos estímulos com afetos, angústias, frustrações, excitações, prazer, etc. Não cabe atribuir as causas da violência, exclusivamente, às questões de classe social ou fatores estritamente econômicos. Na composição de uma "torcida"participam pessoas que respondem a processos criminais, viciados, estudantes, trabalhadores das mais diversas profissões, pais de família, mulheres, jovens. Existe uma pluralidade de "agentes" que assumem diversos papéis nos "jogos" de relações sociais. Paulo Serdan, ao descrever o perfil dos filiados da "organizada"que faz parte, salientou que a "torcida" é "(...) um grupo diversificado. Aqui temos pessoas de todas as classes. (...), temos pessoas aqui que participam de partidos políticos (...), ricos, pobres, negros, amarelos, viciados (...). A gente forma uma grande família". Pode-se dizer que os sócios das "organizadas" são pessoas normais que gostam de futebol, do "barato" promovido pelas "torcidas" e vão aos estádios de futebol pela diversão, pela viagem, pela bebida, pela excitação do "jogo" e, até, pelo prazer de atos de violência. Não cabe, em igual proporção, pensar a violência entre "torcidas", no caso doBrasil, negando os efeitos do esvaziamento político do sujeito social, em especial dos agrupamentos de jovens, instaurado no processo de construção de uma"sociedade atomizada" (Scherer-Warren, 1993:112-113) e impulsionado pelos traçados ideológicos dos governos militares. Para se ter uma idéia, extra-oficialmente, as vítimas fatais nos enfrentamentos entre torcedores de futebol chegam a 29 casos, sendo que a maioria pertence à faixa etária de 10 a 22 anos, totalizando 20 casos. Desses, 15 casos ocorreram de1992 em diante. O comando do 2oBPChq, da cidade de São Paulo, constatou que os agressores são "(...) menores de 18 anos. A média de idade é 16 anos dos elementos que praticam atos violentos. Isso não significa dizer que a gente não detenha indivíduos maior de idade. Isso ocorre, mas existe uma grande maioria de menores que praticam atos de violência". Na articulação vem-se reforçando a idéia de que a violência não é disjunta da realidade social e que é parte da dimensão real do cotidiano dos espaços urbanos das grandes cidades brasileiras e, consecutivamente, dos grupos de jovens. Portanto, a mola propulsora dessas dimensões sociais, combinadas com uma infinidade de fatores históricos, econômicos e socio-culturais, ganha efeito pela produção do esvaziamento político do sujeito social. Nesse sentido, observa-se que os atos de violência transformam-se em um plus nesses acontecimentos e circulam além das questões de classe social ou de efeitos do econômico. Ou seja, no novo sujeito social, no caso o "torcedor organizado", o prazer e a excitação gerados pela prática de atos de violência podem ser elementos importantes na interpretação do comportamento juvenil, uma vez esvaziado de sua capacidade de ser sujeito coletivo. Três aspectos se convergem para justificar e explicar a violência entre "torcidas": a juventude, cada vez mais esvaziada de consciência social e coletiva; o modelo de sociedade de consumo instaurado no Brasil, que valoriza a individualidade, o banal e o vazio; e o prazer e a excitação gerados pela violência ou pelos confrontos agressivos. O que se arrisca, por derradeiro, dizer é que a violência caracterizou-se como parte intensa nas dimensões do cotidiano urbano contemporâneo, em especial dos grandes centros, sendo que uma pista importante, diante da intolerância da"comunidade" esportiva e das "autoridades públicas" ao movimento de "torcidas organizadas", cinge-se na indicação de que a repressão (policial, legal, etc.) contribui para manter uma "suposta ordem", porém, contribui, também, no deslocamento dessa massa jovem para outros movimentos de busca de prazer e de excitação.
Autor -> CARLOS ALBERTO M. PIMENTA
Conclusão:
A violência entre "torcidas organizadas" (acrescenta-se aqui o comportamento de inúmeros grupos de jovens) passou a ser uma preocupação social, uma vez que assumiu característica de acontecimento banal, débil e vazio. Na mesma proporção, passou a ser, também, um incômodo aos interesses em torno do evento esportivo. As explicações que sucederam, restritas à observação dos discursos das"autoridades esportivas" e dos "torcedores", têm ressonância nas seguintes justificativas: - má distribuição de renda; - exploração dos dirigentes esportivos e dos líderes das "torcidas"; - efeitos da criminalidade; - ausência de expectativa de futuro aos jovens; - ausência do Estado, enquanto mentor de políticas públicas de formação social; - efeitos da pobreza; - afrouxamento da ordem legal e das posturas repressivas das instituições de segurança e justiça; - falta de emprego; - miséria generalizada; - familiarização com a violência; - falta de infra-estrutura nos estádios de futebol; - má arbitragem;- gozações de adversários;- derrota de uma partida de futebol. Enfim, há um universo de argumentos e todos não são desprezáveis do ponto de vista da análise empírica. No entanto, os argumentos utilizados pelos "torcedores"e "autoridades esportivas" são insuficientes para aflorar aprofundamentos ao entendimento dessa modalidade de violência. As atitudes e as estratégias explicativas da violência (seja qual for sua natureza) com ênfase apenas no fortalecimento dos mecanismos de "segurança", no direcionamento das ações do poder público ao "disciplinamento" e à "manutençãoda ordem social vigente" devem ser, veementemente, refutadas para evitar injustiças e erros, historicamente repetidos. Primeiro, porque quem produz a violência, no visor imaginário do senso comum, é só a pessoa de baixo poder aquisitivo, pobre, negro ou mestiço. Segundo, porque a ordem dominante não reconhece que a violência pode constituir outras formas de relações sociais, reproduzindo representações, códigos e estilos de vida próprios. Por fim, porque o discurso dominante não reconhece que o indivíduo faz parte de um sistema social de padronização subjetiva e que recebe informações de diversas ordens, reagindo aos estímulos com afetos, angústias, frustrações, excitações, prazer, etc. Não cabe atribuir as causas da violência, exclusivamente, às questões de classe social ou fatores estritamente econômicos. Na composição de uma "torcida"participam pessoas que respondem a processos criminais, viciados, estudantes, trabalhadores das mais diversas profissões, pais de família, mulheres, jovens. Existe uma pluralidade de "agentes" que assumem diversos papéis nos "jogos" de relações sociais. Paulo Serdan, ao descrever o perfil dos filiados da "organizada"que faz parte, salientou que a "torcida" é "(...) um grupo diversificado. Aqui temos pessoas de todas as classes. (...), temos pessoas aqui que participam de partidos políticos (...), ricos, pobres, negros, amarelos, viciados (...). A gente forma uma grande família". Pode-se dizer que os sócios das "organizadas" são pessoas normais que gostam de futebol, do "barato" promovido pelas "torcidas" e vão aos estádios de futebol pela diversão, pela viagem, pela bebida, pela excitação do "jogo" e, até, pelo prazer de atos de violência. Não cabe, em igual proporção, pensar a violência entre "torcidas", no caso doBrasil, negando os efeitos do esvaziamento político do sujeito social, em especial dos agrupamentos de jovens, instaurado no processo de construção de uma"sociedade atomizada" (Scherer-Warren, 1993:112-113) e impulsionado pelos traçados ideológicos dos governos militares. Para se ter uma idéia, extra-oficialmente, as vítimas fatais nos enfrentamentos entre torcedores de futebol chegam a 29 casos, sendo que a maioria pertence à faixa etária de 10 a 22 anos, totalizando 20 casos. Desses, 15 casos ocorreram de1992 em diante. O comando do 2oBPChq, da cidade de São Paulo, constatou que os agressores são "(...) menores de 18 anos. A média de idade é 16 anos dos elementos que praticam atos violentos. Isso não significa dizer que a gente não detenha indivíduos maior de idade. Isso ocorre, mas existe uma grande maioria de menores que praticam atos de violência". Na articulação vem-se reforçando a idéia de que a violência não é disjunta da realidade social e que é parte da dimensão real do cotidiano dos espaços urbanos das grandes cidades brasileiras e, consecutivamente, dos grupos de jovens. Portanto, a mola propulsora dessas dimensões sociais, combinadas com uma infinidade de fatores históricos, econômicos e socio-culturais, ganha efeito pela produção do esvaziamento político do sujeito social. Nesse sentido, observa-se que os atos de violência transformam-se em um plus nesses acontecimentos e circulam além das questões de classe social ou de efeitos do econômico. Ou seja, no novo sujeito social, no caso o "torcedor organizado", o prazer e a excitação gerados pela prática de atos de violência podem ser elementos importantes na interpretação do comportamento juvenil, uma vez esvaziado de sua capacidade de ser sujeito coletivo. Três aspectos se convergem para justificar e explicar a violência entre "torcidas": a juventude, cada vez mais esvaziada de consciência social e coletiva; o modelo de sociedade de consumo instaurado no Brasil, que valoriza a individualidade, o banal e o vazio; e o prazer e a excitação gerados pela violência ou pelos confrontos agressivos. O que se arrisca, por derradeiro, dizer é que a violência caracterizou-se como parte intensa nas dimensões do cotidiano urbano contemporâneo, em especial dos grandes centros, sendo que uma pista importante, diante da intolerância da"comunidade" esportiva e das "autoridades públicas" ao movimento de "torcidas organizadas", cinge-se na indicação de que a repressão (policial, legal, etc.) contribui para manter uma "suposta ordem", porém, contribui, também, no deslocamento dessa massa jovem para outros movimentos de busca de prazer e de excitação.
Autor -> CARLOS ALBERTO M. PIMENTA
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